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Estudos > Anorexia y bulimia en Internet

Ame não o que você é, mas o que você pode se tornar: a identidade da rede pró-anorexia e pró-bulimia na internet

 

Ana Helena Rotta Soares

Doutora em Saúde da Criança e da Mulher – IFF/FIOCRUZ
Pesquisadora FIOCRUZ/FAPERJ
Diretora Executiva – SEU ABRIGO

Priscila Menezes de Aragão

Mestre em Saúde Coletiva – IMS/UERJ
Doutoranda IMS/UERJ
Coordenadora de Projetos – SEU ABRIGO

O movimento pró-anorexia e pró-bulimia na internet se iniciou no ano 2000 nos EUA e na Inglaterra. Já no Brasil encontramos produções em 2002. A rede se instaurou, principalmente através de weblogs, até o ano de 2004 com a criação da comunidade virtual Orkut que potencializou a interação, organização e sofisticação da rede (Recuero, 2005). Contudo, os weblogs não foram abandonados pelos jovens, que utilizam destes espaços personalizados por diferentes cores, símbolos e layouts para manifestar-se de maneira mais detalhada e individual. Aqui postam fotos, poemas, pensamentos e escrevem seus diários contendo suas experiências, ganhos e fracassos relacionados ao estilo de vida pró-ana e pró-mia.

A rede parte do pressuposto central que define os transtornos alimentares não como uma doença, mas um estilo de vida do qual qualquer indivíduo pode aderir. A internet potencializa a criação de vínculos com o propósito de reafirmar a patologia e sua caracterização como um estilo de vida esvazia a problemática da doença tornando-a uma marca identitária (Ortega, 2003).

Os materiais divulgados na rede são diversificados e incluem desde cartas, frases motivadoras, normas comportamentais e poesias, até fotografias de celebridades famosas como inspiração. Além disso, destacam-se cartas e orações que personificam e glorificam as doenças anorexia e bulimia como as amigas fieis ou até deusas Ana e Mia. A padronização de informações e propagação de conhecimentos sobre esta maneira de enfrentar os transtornos reforça a percepção dos mesmos como um estilo de vida que promete manter seus adeptos magros, belos, bem-sucedidos e, acima de tudo, participantes da sociedade.  Ao mesmo tempo o grande número de dados semelhantes valoriza, perpetua e gera uma falsa legitimidade aos conteúdos ali presentes. Desta maneira, observamos que as informações padronizadas servem como uma espécie de roteiro que demonstra a adesão do seu host à causa, seu comprometimento com a rede e facilita futuras conexões. 

Podemos dizer que o sistema de valores construído nas páginas pró-ana e pró-mia brasileiras se respalda, além das particularidades relacionadas ao distúrbio de imagem corporal, no forte temor ao estigma relacionado ao gordo e como um estratégia de retaliação a esta ameaça (Soares & Aragão, 2006). A gordura, inimiga declarada destes jovens, representa a exclusão, humilhação, a falta de auto-controle e o fracasso (Goffman, 1988). Em contrapartida, os ossos remetem à aceitação social, ao sucesso, à riqueza, ao glamour e à felicidade. Sendo a obesidade um crescente problema de saúde pública no Brasil, a rede pró-ana e pró-mia se apresenta como uma alternativa, apesar destrutiva,  para jovens obesas ou com sobrepeso que desejam corpos magros. Frases como “ser gordo é humilhante” e “gordos são fracassados” “vou ser magro, vou ser gente” são comuns nestas páginas.

Conforme brevemente mencionado, a identidade Ana e Mia é fortemente marcada pela personificação da doença seja esta através da amigas leais ou das deusas. A presença de Ana é sempre esperada e desejada, já Mia é um símbolo de vergonha e descontrole. Contudo, Ana é perigosa, suas estratégias são extremas e sua presença apesar de trazer a esperança da perfeição, traz também a dor, o desespero e o isolamento. Esta luta de amor-ódio e apoio-destruição agrava o sofrimento, ambigüidade e conflito em que vivem estas jovens.

A personificação da anorexia e bulimia serve como um instrumento de negação do desenvolvimento da autonomia e responsabilização dos jovens em torno de seus processos de vida e saúde. Desta forma, a doença passa a ser a responsável tanto pelos ganhos quanto pelos fracassos do jovem, sejam eles parte ou não de sua luta contra a gordura. Nota-se que presença ou ausência das ‘amigas’ na vida destes jovens é descrita através dos sintomas que cada transtorno carrega. Protagonistas centrais nas vidas de seus seguidores, Ana e Mia garantem sua presença na vida destes jovens por meio de reações corporais e psíquicas que nada mais são que a instauração dos transtornos nos mesmos. No trecho abaixo podemos observar como a morte de uma integrante da rede é observada como conseqüência da traição da uma grande ‘amiga’:“Há uns 10 minutos atrás recebi a péssima notícia de que a Aninh@ morreu ontem (18 de fevereiro) com uma parada cardíaca por causa da mia... a sua "melhor amiga" a traiu... levou ela embora, a matou, acabou com a sua vida, a destruiu e depois a levou...”

A melhor amiga ‘Ana’ também pode transformar-se em uma divindade, uma Deusa que dita suas leis com a promessa de um sentido maior para a vida de seus seguidores. Sua adoração tem como maior recompensa a magreza associada ao sucesso, felicidade, controle e aceitação. Contudo, Ana não é uma Deusa misericordiosa, ela institui o remorso, temor e punição. Ana é insaciável, quase impossível de ser louvada de maneira correta e seus traidores são levadas a degeneração espiritual e física, sofrimento e finalmente à catástrofe da gordura ou da morte.

É importante frisar que a transferência da experiência da doença como algo pertencente a uma religião potencializa a periculosidade desta doutrina, visto que dá lugar a demonstrações extremas de adesão e fanatismo (Soares & Aragão, 2006).
A seguir uma oração encontrada em um weblog: “Anna que estais no céu... santificado seja o seu nome... venha a nos e o nosso reino... seja feita a sua vontade... aqui na terra como no céu... a nossa força de cada dia, nos dai hoje... perdoai as nossas compulsões,assim como tem nos ofendido... não nos deixe cair em tentação.. . mas livrai-nos das gorduras... Amém.”

A doença personificada fornece um sistema de crenças que desvaloriza, desqualifica e limita as possibilidades de vida de seus seguidores, contribuindo com o isolamento e a baixa auto-estima e auto-imagem dos mesmos. Suas regras ultrapassam a restrição de calorias e alimentos para a eliminação de qualquer prazer. Sendo assim, cria-se um círculo vicioso de desvalorização - isolamento social – acentuação da doença onde a possibilidade de recuperação é reduzida.

Frisamos aqui que estas dinâmicas de ideologias, estilo de vida e personificação da doença convivem nas páginas sem anularem-se umas as outras. Muito pelo contrário, cada representação da doença alimenta a outra e reforça a luta conjunta e o compromisso com a rede social.
A rede pró-ana e pró-mia não é uma comunidade igualitária. Apesar de declarações de amor e amizade, mensagens de suporte, motivação e aceitação, observa-se um componente de interações competitivas que contribui com a hierarquização de seus membros.

A popularidade, sempre desejada, se ressalta pelo número de amigos listados nos weblogs, além do número de visitas que recebem e grau de intimidade e admiração exposto nas mensagens deixadas durante estas visitas. A hierarquização acontece em função de vários fatores, entre eles encontramos o auto-controle e o grau de adesão à causa. Tais atributos, valiosos componentes de fortalecimento dos laços sociais e afetivos do grupo são desejados por todos e quando identificados em algum membro induzem à elevação do mesmo para um patamar de liderança e inspiração da comunidade.  Se pensamos na rede pró-ana e pró-mia como uma alternativa de apoio para jovens excluídos devido a suas diferenças, podemos notar que esta dinâmica de classificação e comparação pode representar mais um espaço de desvalorização, exclusão e desprezo para aqueles jovens que não alcancem destaque. Em outras palavras, o componente competitivo pode representar mais um espaço de exclusão de indivíduos já excluídos previamente, alimentando a baixa auto-estima e contribuindo com a desorganização e desamparo destes jovens.

É importante ressaltar que as jovens anoréxicas são modelos para as bulímicas que admiram seu auto-controle, determinação e perseverança. Abaixo observamos o sentimento de fortaleza e estima durante os dias sem comer apesar da fragilidade física: “Tenho saudades dos dias sem comer, de me olhar no espelho, fraca e doente, mas me sentir forte por dentro... desculpem-me.”

O conteúdo encontrado demonstra a complexidade e sofisticação da rede instaurada virtualmente. Vale ressaltar que as estratégias de apropriação da doença demonstradas na internet denunciam a distorção da realidade característica dos distúrbios alimentares. Além disso, a rede representa um alto teor de periculosidade para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. As escolhas de como responder a tais questões tem uma enorme diversidade, e não podemos ser reducionistas a acreditar na internet como vilã. A internet se configura também como o espaço de maior relevância na fonte de informações desses indivíduos, assim como de socialização. Logo se torna necessário medidas que ofereçam uma proteção a esta exposição.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

Goffman E. Estigma. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan; 1988.
Ortega, FJG. Práticas de ascese corporal e constituição de bio-identidades. Cadernos de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. XI, n. 1, p. 59-77, 2003.
Recuero, R. Comunidade em Redes Sociais na Internet: Um estudo de uma rede pro-ana e pro-mia. Faro Valparaiso, v1, n2, 2005.
Soares AHR & Aragão PM. Apologia aos transtornos alimentares na internet: o perigo dos grupos pró-ana e pró-mia para crianças e jovens. 2006(no prelo).

 

 

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